Aprendendo e viajando com o jornalismo

Depois de um tempo sem escrever aqui, resolvi compartilhar um texto que fiz para a aula de redação jornalística II.

Bom, minhas aulas começaram nessa semana e a primeira aula de redação foi bem divertida. Nossa professora deu três possíveis temas para uma história. Poderíamos escolher qualquer um. Eis o que eu escolhi: ”Retirada de navio levará de 7 a 10 meses diz defesa Civil Italiana”. 

Tivemos 30 minutos para escrever e essa foi a história que saiu.

Memórias da minha juventude em um oceano 

Quando eu era criança, meu pai me levou para pescar. O que existe de tão especial nisso? Nada, eu suponho. Até me parece um pouco clichê. Pois bem, ao entrar no mar, senti algo único. Incrível. A sensação de estar em um oceano, me deu uma nova perspectiva sobre a vida. Tudo bem, isso foi mais clichê ainda.

Conforme os anos iam passando, comecei a me apaixonar ainda mais pelo mar. Por barcos, navios. Qualquer coisa que tirasse meus pés da terra. Até então, não havia experimentado nada igual. Nem imaginava que me apaixonar me traria a mesma sensação.

Tirar os pés do chão não é nada comparado ao que senti ao olhar para aquela menina pela primeira vez. Desesperado e sem saber o que fazer para chamar sua atenção, resolvi levá-la para pescar. Que grande ideia! Foi o que pensei.

Me aproximei, ainda que timidamente, daquela menina de olhos profundos e castanhos, cabelos perfeitamente escovados e perfume adocicado. Se isso não faz um garoto estremecer, me pergunto o que mais faria.

Arrisquei um olá e tive sorte. Ela me lançou um olhar divertido e respondeu com a voz mais bela e doce do universo: olá. Antes que perdesse a coragem, falei tudo de uma vez: o que você acha de sair para pescar comigo? Só se você quiser. Esperei o não. Imagine minha surpresa quando ela riu e aceitou. Tratei de sumir logo dali, antes que ela mudasse de ideia.

Corri para casa, a fim de me arrumar para o grande encontro. Chamei meu pai e pedi gentilmente o barco de pesca emprestado. Estava aguardando a pergunta: para que você precisa dele?, quando fui surpreendido por um: filho, nós vendemos o barco.

Então, com todo o meu charme e drama de adolescente, saí de casa aos prantos, declarando que minha vida havia chegado ao fim. Coitado do meu pai. Como ele poderia me entender, se nem eu entendia a mim mesmo?

Resolvi enxugar as lágrimas e explicar para minha musa inspiradora os últimos acontecimentos. Se já havia ficado em choque por ela ter aceitado meu convite, calcule o choque da cena que eu estava prestes a ver. Minha menina dos olhos castanhos profundos, cabelos perfeitos e perfume adocicado, aos beijos com outro cara. Não bastasse isso para partir meu coração, reparei que eles estavam em um NAVIO. Sim, um NAVIO. Como eu competiria com isso?

Com o passar dos anos, trabalhei duro e comprei meu próprio navio (inveja?). E quer saber? Era bem melhor que o do sujeito. Minha vida era boa. Mas foi quando estava de férias na Itália que eu vi ela virar de cabeça para baixo. Literalmente. Ao enfrentar uma forte tempestade, percebi que meu novo navio não iria aguentar. Me preparei para o fim e chorei baixinho.

Meses depois, a defesa civil encontrou meu belo e caríssimo navio. Alegaram que levaria de 7 a 10 meses para retirá-lo. E eu? Sobrevivi, claro. Acontece que o tal do rapaz que beijou minha garota anos atrás, estava passando por lá e decidiu me salvar. Agora estamos quites.

Carolina Ignaczuk

Resenha: Todo dia de David Levithan

”Acordo. Imediatamente preciso descobrir quem sou. Não se trata apenas do corpo – de abrir os olhos e ver se a pele é clara ou escura, se meu cabelo é comprido ou curto, se sou gordo ou magro, garoto ou garota, se tenho ou não cicatrizes. O corpo é a coisa mais fácil à qual se ajustar quando se está acostumado a acordar em um corpo novo todas as manhãs. É a vida, o contexto do corpo, que pode ser difícil de entender.”

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David Levithan, mostrou-se um escritor incrível. Nesse livro, ele levou a criatividade a um novo patamar. Confesso que só conhecia o trabalho de David pelo livro que ele escreveu em parceria com o John Green – Will & Will. Esse é o primeiro livro só do autor que leio e com certeza não será o último. Uma das primeiras coisas que chamou minha atenção foi a capa, que é lindíssima e ao mesmo tempo diferente. Depois, me interessei pela história e pelo fato de eu realmente não saber como ela iria se desenrolar.

Toda manhã A. acorda em um corpo diferente. Já foi mulher, homem, doente, homossexual, dependente químico, magro, obeso. Não importa qual seja seu corpo, ele precisa se adaptar. Para tornar as coisas mais fáceis, ele consegue acessar a memória das pessoas em que está habitando, sabendo como ela pensa e age. Com essas informações, ele pode fingir perfeitamente ser aquela pessoa sem influenciar na vida dela.

A vida de A. é guiada por duas regras fundamentais: não interferir e nunca se apegar, apenas tentar passar o dia da melhor forma possível e aceitar que essa é a vida que leva.

Em um dia normal, A. desperta no corpo de Justin, ele é só mais um, e amanhã será apenas uma vaga lembrança. Ele toma café e vai até a escola. Ao chegar lá, ele descobre que Justin tem uma namorada. Seu nome é Rhiannon,  incrivelmente bonita e vulnerável. Ela faz tudo por Justin, embora ele não dê valor. A. logo percebe o quando ela é triste por isso e como seu humor depende das ações do namorado. É aí que ele faz o que não deve. Resolve matar aula para levar Rhiannon até a praia. Lá eles passam um dia maravilhoso, conversam e trocam beijos. Ela fica muito feliz, no fundo não acreditando que aquele seja o Justin que ela namora. A. resolve ser por um dia, tudo aquilo que Justin não é. Conforme o dia vai passando, A. sabe que não vai esquecer de Rhiannon. No fim do dia, ele se despede, com o desejo de poder vê-la sempre. Com o desejo de poder ser uma pessoa normal.

No outro dia, ele acorda como Nathan. Ele é um bom garoto. Seu quarto é arrumado, faz o dever de casa e tem uma boa família. A. acorda e vai checar seu e-mail. Como ainda lembra da senha de Justin, decide invadir a conta dele a fim de descobrir onde o casal estaria hoje. Logo ele descobre que há uma festa na casa de um amigo de Justin. Quebrando as regras novamente, ele mente para os pais de Nathan e vai até a festa, onde conversa com Rhiannon e até dança com ela. Ao sair de lá, percebe que é quase meia noite e que não vai chegar a tempo em casa, então para o carro em um acostamento e dorme ali mesmo, torcendo para que fique tudo bem com Nathan e pedindo desculpas silenciosamente.

ImageEsse acontecimento mudaria o rumo das coisas, uma vez que Nathan colocou na cabeça que não estava controlando o próprio corpo no dia da festa. Ele começou a espalhar que estava possuído e a notícia logo aparece nos jornais. Ao entrar na sua conta de e-mail, A. vê que recebeu algo de Nathan, onde ele exige saber quem ele é e o que fez com ele naquela noite. Imediatamente, A. percebe que deixou seu e-mail logado no computador de Nathan, esquecendo de limpar o histórico. Ele sabia que não se livraria do garoto tão cedo.

Ao mesmo tempo, A. tenta entrar em contato com Rhiannon todos os dias, em mil formas e corpos diferentes. Sabendo que está apaixonado por ela, resolve correr um grande risco: contar toda a verdade. Agora o destino de A. está nas mãos de Rhiannon. Ela deve escolher entre A. e seu namorado e também conviver com o fato de estar com uma pessoa diferente a cada dia.

Mas como esperar que uma pessoa com uma vida normal possa se adaptar ao estilo de vida de A.? E até quando interferir na vida dos outros corpos é justo?

Descubra você mesmo.

”Que história é essa sobre o instante em que você se apaixona? Como uma medida tão pequena de tempo pode conter algo tão grande? De repente, percebo por que as pessoas acreditam em déjà vu, por que acreditam em vidas passadas; porque não há meio de fazer com que os anos que passei na Terra sejam capazes de resumir o que estou sentindo. O momento em que você se apaixona parece carregar séculos, gerações atrás de si – tudo isso se reorganizando para que essa interseção precisa e incomum possa acontecer. Em seu coração, em seus ossos, por mais bobo que você saiba que é, você sente que tudo levou a isso, que todas as flechas secretas estavam apontando para este lugar, que o universo e o próprio tempo construíram isso muito tempo atrás, e agora você acaba de perceber que chegou ao local onde sempre deveria ter estado.” (pág. 25)

Carolina Ignaczuk

Resenha: A 5ª Onda de Rick Yancey

”Depois da primeira onda, só restou a escuridão. Depois da segunda onda, somente os que tiveram sorte sobreviveram. Depois da terceira onda, somente os que não tiveram sorte sobreviveram. Depois da quarta onda, só há uma regra: não confie em ninguém. Agora A QUINTA ONDA está começando”…

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Para os amantes de ficção, aqui vai uma sugestão de leitura incrível. A 5ª Onda é uma trilogia do autor Rick Yancey, que era apenas um auditor fiscal com o lindo sonho de ser escritor. Após 12 anos na profissão, Rick resolveu largar o emprego para dedicar-se a escrita. Yancey mostrou-se um escritor incrível. Em um livro de ficção, alienígenas e fim do mundo, ele consegue nos fazer dar boas risadas. Com uma escrita simples e personagens de muita personalidade, a 5ª Onda é uma história sobre coragem e acima de tudo, sobre o amor entre irmãos.

Cassie é uma menina de 16 anos totalmente normal. Tem uma família feliz, mãe, pai e um irmãozinho chamado Sammy. Como toda adolescente normal, é apaixonada pelo cara mais popular da escola: Ben Parish. Até então, o único problema de Cassie era seu amor não correspondido. O mundo como ela conhece vem abaixo com a chegada dos Outros (nome utilizado para falar dos alienígenas). Os Outros não são alienígenas normais. Desde a chegada, muito se especulou sobre eles. A verdade é que ninguém sabe nada sobre eles. Nem sua aparência, nem seus objetivos reais na terra.

Depois de perder a mãe, Cassie e sua família partem em direção a algum lugar seguro. Nesse novo mundo, qualquer pessoa pode ser o inimigo, um inimigo invisível. Ao andar por várias cidades, encontram um acampamento, com soldados, água e comida. Finalmente pareciam estar em segurança. Todos no abrigo ajudam uns aos outros ao mesmo tempo em que traçam planos para descobrir o que os Outros querem com os seres humanos. O plano é mover todas as pessoas para um abrigo melhor e crianças são as prioridades. Um ônibus amarelo cheio de soldados aparece para buscar todos que são menores. Sammy não quer ir sozinho, mas seu pai o obriga a embarcar dizendo que ele estará em segurança desse jeito. O menino deixa seu urso de pelúcia com a irmã, para quando ela estiver com medo e quiser alguém para abraçar. Cassie promete que irá buscá-lo, mas sabe que algo errado está acontecendo. Logo após a saída do ônibus, ocorre um massacre no acampamento. Os soldados que antes eram confiáveis, agora estão estourando os miolos das pessoas com armas. Um desses soldados, o comandante Vosch, mata seu pai na sua frente. Então, sem saída, ela corre.

Correndo desesperadamente, ainda em choque, dá de cara com um silenciador, (nome que ela dá aos alienígenas) que atira em sua perna mas não tem coragem de matá-la. Atordoada e machucada, Cassie se esconde na floresta, com o fuzil em uma mão e o urso em outra. Desmaiada e sem forças, quando acha que sua vida está chegando ao fim e que é o último ser humano na face da terra, ela acorda em uma fazenda. A propriedade pertence a Evan Walker, que por sinal, é extremamente bonito, o que deixa Cassie mais a vontade, afinal, o fim do mundo com um cara tão bonito não poderia ser tão ruim. Poderia?

Até então, Cassie achava que permanecer sozinha era a chave para permanecer viva, mas existe algo em Evan que a conforta. Ele também foi vítima dos Outros, perdeu sua família e namorada. Agora ela precisa manter a promessa feita ao irmão e irá voltar para buscá-lo, mesmo sabendo que ele pode estar morto. Enquanto se recupera dos ferimentos, Cassie percebe uma série de coisas estranhas em Evan: O que ele faz quando sai toda noite? Por que ele a resgatou? Por que suas mãos são tão macias, já que ele vive em uma fazenda?

Cassie tenta manter a sanidade em um mundo dominado pelo caos. A 5ª Onda é um livro sobre perdas e escolhas, entre a vida e a morte. Uma história nada clichê, com uma trama surpreendente.

Carolina Ignaczuk

Guia de torcida: Como ser uma torcedora fanática

Deixando resenhas e dramas um pouco de lado, resolvi fazer um post bem humorado com dicas básicas de como ser uma torcedora fanática e de como assustar seu marido, namorado, irmão, fazendo com que ele pense que você entende de futebol. Obviamente isso é apenas uma brincadeira.

Pra quem não me conhece direito, sou Corinthiana roxa desde pequena.Venho de uma família bem apaixonada pelo timão e não deu outra, virei fanática. Sou uma pessoa esquisita e sempre estou obcecada por algo: bandas, livros e Corinthians. Não sei muito bem da onde surgiu toda essa paixão, só sei que sou extremamente apaixonada pelo meu time – o que torna o meu sonho de ser jornalista esportiva um pouquinho difícil.

A ideia de escrever isso partiu de uma amiga minha. Gostei e resolvi fazer uma espécie de guia para que você entenda o futebol e veja que não é um bicho de sete cabeças. Como todos sabem, já deixei explícito o que penso sobre esporte e mulheres, por isso vamos pular essa parte e partir para as dicas. Relembrando: não levem a sério.

Primeiro passo: Vamos imaginar a seguinte situação: você nunca assiste a nenhum jogo do seu time e quando ele ganha, você resolve postar milhares de coisas nas suas redes sociais. Pelo amor de Deus, antes de declarar-se torcedora fanática, conheça pelo menos os jogadores do seu time. Não adianta fazer um milhão de declarações se você não sabe nem o nome do técnico. Então a primeira dica é conhecer o técnico do seu time, de onde ele veio, qual é seu ‘’estilo’’ de arrumar o time, etc.

Segundo passo: É importante você estar conectada com tudo o que acontece com o seu time. O facebook  é o melhor lugar para isso. Curtindo páginas relacionadas com esportes, você acaba sabendo de tudo o que anda acontecendo mesmo sem querer.

Terceiro passo: Agora que você já sabe o que anda acontecendo e pelo menos o nome dos jogadores do seu time, é hora de saber a posição de cada jogador. Não complique: Zagueiros ficam pertinho do goleiro e tem a função de defender, os meias e os laterais são óbvios – você só precisa olhar a posição que eles estão no campo. Atacantes são os que ficam lá na frente para marcar os golzinhos.

Use suas habilidades de mulher! Mulher não repara em tudo? Então! Olhe as fotos dos jogadores, se você achar algum bonitinho, vai decorar rapidinho! Depois, você consegue identificá-los pelas características: quem é careca, quem é tatuado, quem é mais gordinho, baixinho, alto, etc.

Quarto passo: E a hora de conhecer a história de seu time. Não precisa estudar coisa nenhuma, apenas tenha em mente seus principais títulos, grandes ídolos e dia em que foi fundado. Decore o hino: Tem algo mais engraçado que a cara de um homem quando uma mulher canta o hino do seu time inteirinho?

Quinto passo: Algumas regrinhas bobas e fáceis: Pra saber quem é que está jogando ‘’em casa’’ é só ver qual é o primeiro nome que aparece no placar. Por exemplo, CORINTHIANS x GRÊMIO – Corinthians está jogando em casa porque ‘’aparece primeiro’’. Você pode assustar seu namorado apenas com essa informação.

Último passo: Entenda o impedimento, o terror das mulheres. Abaixo, um exemplo super fofo extraído do blog Cresci, e Agora? (http://crescieagora.com.br/) que vai te fazer entender tudinho.

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Agora que você sabe o nome dos jogadores, suas funções, o hino, o aniversário, principais títulos, regra de impedimento e etc, você pode sair por aí declarando amor ao futebol e assustar aquele seu amigo chato que vive cismando que mulher não gosta e não entende de futebol.

Carolina Ignaczuk

Pés no gramado: sem salto alto, sem sensibilidade e sem asneiras

ImagemEscrever sobre qualquer coisa – sem restrições.

Quando iniciamos o curso de Jornalismo (ou qualquer outro curso), Somos pegos pela famosa pergunta: Porque você escolheu jornalismo? Em que área quer atuar?  Sempre respondi a mesma coisa, mesmo que fosse em pensamento. Escolhi jornalismo porque quero fazer diferença de alguma forma, nunca me vi fazendo qualquer outra coisa e quero atuar na área esportiva. Eu poderia ouvir os pensamentos de algumas pessoas e a surpresa nos olhos de alguns professores.

Apesar de escrever constantemente sobre livros, filmes e poemas, nunca escrevi sobre esportes. Bem irônico pra quem quer ser jornalista esportiva, não?  Como estou cansada de ver sempre as mesmas coisas por aí, resolvi escrever o que eu realmente penso da presença feminina no jornalismo esportivo. Para ter uma noção básica do que estou falando, ao digitar jornalismo esportivo feminino no Google, você irá encontrar vários blogs e matérias sobre preconceito. Sabemos que os tempos mudaram e que hoje em dia, as mulheres têm direitos que nem sonhavam que conseguiriam. Será que esse preconceito não está entre as próprias mulheres? Não precisamos associar a imagem do futebol com a mulher de salto alto, maquiada e sensível justamente porque não necessitamos de toque feminino no jornalismo esportivo. Jornalismo é jornalismo e pronto. Não tem sexo, raça e idade. Precisamos abordar o esporte de um jeito diferente só porque somos mulheres? As regras do esporte são as mesmas para todos e regras são regras, não mudam de acordo com o sexo do jornalista.

Não devemos mais tratar a presença da mulher no esporte como algo incrível que quebra todas as barreiras. Não atualmente. O preconceito existe independente da profissão que você seguir e não precisa ser um obstáculo, pode ser um estímulo. Você não precisa entrar nesse mundo de cabeça baixa e com medo porque é mulher. O esporte une paixões e interesses ao redor do mundo. Se você for realmente apaixonada, então não tem o que temer.

Sei que tenho que trabalhar em vários pontos da minha personalidade e até mesmo me aprofundar mais no mundo esportivo, mas com certeza, nunca deixarei ninguém me dizer que eu não sei, que não posso ou que não consigo ser jornalista esportiva.

Ninguém é maior que meus sonhos e afinal, quem é que tem a capacidade de destruir os sonhos de uma corinthiana fanática?

 Carolina Ignaczuk

Eu escrevo apenas, tem que ter por quê?

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Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Razão de ser – Paulo Leminski

Hoje acordei com uma vontade imensa de escrever. Há dias em que desejo colocar todas as minhas angústias, medos e incertezas dentro de um caderninho e levar pra bem longe. Acredito que a escrita me liberta de alguma forma, mesmo que as vezes eu não saiba porque estou escrevendo e mesmo que eu não saiba o que vou escrever.

Escrever pela simples sensação de escrever. Imaginar que todas as situações em que me encontro fazem parte de um livro. Ler os mais belos poemas e desejar escrever assim um dia. Passar por todas as frustrações de estar sentada imaginando e tentando encontrar as palavras certas. Criar um conjunto de ideias e palavras que toquem outras pessoas.

Talvez essa seja a razão pela qual eu escrevo. Talvez eu seja muito dramática para expor minhas ideias em voz alta. Talvez eu queira gritar baixinho. Talvez eu queira ser lembrada e eternizada pelas minhas palavras. É, talvez.

Carolina Ignaczuk

Resenha: O menino do pijama listrado

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Existe algo incrível em relação a esse livro. Os personagens, a forma como a história é escrita e se desenvolve, suas expressões simples e inteligentes. O que o torna ainda mais incrível, é o fato de que o autor John Boyne escreveu o livro em apenas 2 dias e meio.

A história acontece em meio ao holocausto, quando os judeus foram obrigados a esquecer suas antigas vidas e aprender a viver em um campo de concentração, vigiados pelos soldados de Hitler.

Bruno é um menino de 9 anos que ama sua vida em Berlim. Lá ele tem uma grande casa (de 5 andares), 3 melhores amigos pra vida toda e uma irmã chamada Gretel, também conhecida como Caso Perdido. O pai de Bruno é um soldado muito importante e todos sabem que O Fúria tem grandes planos para ele.

Um dia, ao chegar em casa, Bruno se depara com a empregada Maria arrumando todas as suas coisas em grandes caixas. Foi quando sua mãe apareceu para dar a má notícia: eles iriam para outra casa, em outro lugar. Mesmo com a insistência de Bruno para que continuassem morando ali, a família mudou-se para bem longe, o que deixou o menino muito triste. Eles viviam fazendo sacrifícios pelo trabalho do pai.

Bruno odiou a nova casa. Não era tão grande quanto a de Berlim (tinha apenas 3 andares) e certamente não havia ninguém para brincar. Passou a maior parte dos dias tendo aulas com sua irmã em casa, lendo e olhando pela janela de seu quarto, então percebeu que não muito longe dali, existia um lugar cheio de pessoas que vestiam um mesmo uniforme listrado. Bruno não entendia quem eram essas pessoas e quando perguntou ao pai, ele explicou que não precisaria se preocupar com elas.

Entediado ao extremo, Bruno decide explorar o lugar, afinal, fazia isso o tempo todo em Berlim. Andou por algum tempo e encontrou o lugar que observava de seu quarto. Chegando lá, avistou um menino sentado do lado de dentro da cerca. O menino era muito magro e estava muito pálido. Os meninos conversam e Bruno descobre que o nome de seu mais novo amigo é Shmuel. Quando se despedem, Bruno promete voltar no outro dia.

E assim ele faz, durante vários dias, ele sempre retorna para conversar com o amigo. Conversam sobre várias coisas e Bruno sabia que Shmuel seria seu melhor amigo pra vida toda.

A partir disso, o pior acontece.

Apesar de ser uma leitura fácil e simples, narrada por uma criança de 9 anos, O menino do pijama listrado nos faz viver as mesmas emoções dos personagens e nos faz ver a vida (e as pessoas) de uma forma diferente e única.

Carolina Ignaczuk

Poemas para morrer de amores parte II

1° Eu levo o seu coração comigo – E. E. Cummings 

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Eu levo o seu coração comigo
(eu o levo no meu coração)
eu nunca estou sem ele
(a qualquer lugar que eu vá, meu bem,
e o que quer que seja feito por mim somente é o que você faria, minha querida)

Tenho medo que a minha sina
(pois você é a minha sina, minha doçura)
eu não quero nenhum mundo
(pois bonita você é meu mundo, minha verdade)
e é você que é o que quer que seja o que a lua signifique
e você é qualquer coisa que um sol vai sempre cantar

Aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
(aqui é a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder)
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes

Eu levo o seu coração (eu o levo no meu coração).

2° Autopsicografia – Fernando Pessoa 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

3° Bilhete – Mario Quintana

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda.

4° Amar você é coisa de minutos – Paulo Leminski 

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui.

5° O Corvo – Edgar Allan Poe (Tradução de Fernando Pessoa) 

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Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

“É só isto, e nada mais”.

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

“É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome “Nunca mais”.

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigo, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais”.

Disse o corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesperança de seu canto cheio de ais

Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que queria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem cujos leves passos soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta”!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

Libertar-se-á… Nunca mais!

Carolina Ignaczuk

Resenha: Um Porto Seguro – Nicholas Sparks

quarto-legal

“Todo mundo tem um passado, mas ele se limita a ser apenas o passado. Você pode aprender com ele, mas não pode mudá-lo. A pessoa que eu conheço é aquela que eu quero conhecer ainda melhor…” Pág: 160

Não sei se é porque foi o último livro que li nessa semana, mas considero “Um Porto Seguro”, escrito por Nicholas Sparks, um dos melhores livros que já li. E um dos melhores livros dele, sem sombra de dúvidas. Comecei em um sábado e terminei domingo à noite. Me envolvi tanto com a história que não consegui parar de ler, perdi a noção do tempo diversas vezes, e me emocionei em cada uma das 414 páginas.

Quem me conhece, sabe que sou louca por todos os livros que ele escreve, e quando chega um novo lançamento, mal leio o título, já estou levando pra casa assim mesmo. Esse livro, em especial, foi uma grande surpresa pra mim. Conheci um outro lado de Nicholas, em uma história de suspense, tratando mais especificadamente sobre a violência doméstica, e o poder do amor.

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Katie começa a trama como uma mulher misteriosa, que chegou a cidade de Southport, Carolina do Norte, para recomeçar sua vida. Ela é garçonete em um restaurante a beira da praia, e faz o possível para não se envolver com ninguém, evitando criar raízes naquela cidade. Até Jo decidir alugar a cada ao lado, e se tornarem vizinhas.

Ambas com seus mistérios e segredos, acabam criando uma amizade pura e verdadeira, e ao poucos, Katie começa a se libertar de seu próprio casulo, revelando sentimentos que ela jamais pensou em compartilhar com alguém.

Alex é viúvo e tem dois filhos, dono de uma pequena loja de conveniências da cidade, e está aprendendo a conviver com a dor da perda. Se esforça em tentar ser o melhor pai do mundo, e o destino acaba aproximando Katie de Alex. Só que existem dois extremos na vida dos dois.

Enquanto ela não quer se envolver com alguém, confiar em ninguém e muitos menos compartilhar uma relação amorosa com um homem, ele é um aprendiz de pai, que tenta ao máximo ser uma boa pessoa, e que apesar de todas as provações, talvez estivesse disposto a recomeçar a vida – por mais difícil que isso possa parecer.

O grande problema são os traumas de Katie. Ela, ao mesmo tempo em que é linda, traz consigo um passado traumático, e definitivamente não está disposta a revelar-se e correr o risco de viver aquilo de novo. Mas ele é paciente e sabe esperar o momento certo – e sabe também que na hora certa, e se for pra ser, ela deixará de lado suas limitações e medos – para entregar-se ao amor.
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Sparks conseguiu mais uma vez me deixar apaixonada por mais uma de suas histórias. É uma trama bem construída, estruturada e com passagens únicas e emocionantes. Mesmo se você já assistiu ao filme (que está em cartaz no cinema), vale a pena. É bem diferente do livro, e cheio de detalhes surpreendentes. Para quem é fã dele, assim como eu, recomendo começar a leitura hoje mesmo! Com certeza é mais uma daquelas histórias que vão ficar na minha memória para sempre.

Poemas para morrer de amores parte I

Ler é uma terapia. A melhor terapia. Quem tem o hábito de ler sabe disso. Algumas leituras nos fazem sonhar, viajar e desejar escrever tão bem quanto qualquer poeta, nos tiram literalmente do chão, arrancam sorrisos e suspiros.
Inspirada, resolvi postar de tempos em tempos, algumas poesias que me marcaram de alguma forma. Em minha opinião, este é o conjunto de palavras mais lindo que alguém poderia escrever.

Imagem1° Annabel Lee – Edgar Allan Poe
(Quem me conhece sabe que sou extremamente obcecada por Poe. Além de idolatrar seus contos, fiquei surpresa ao ler Annabel Lee pela primeira vez, justamente por ser um poema leve, lindo e diferente de tudo o que já li).

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
(Poema traduzido pelo INCRÍVEL Fernando Pessoa).

2° Objeto Sujeito – Paulo Leminski

Você nunca vai saberImagem
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer de um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito

você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra pasárgada
xanadu ou shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá.

3° A um ausente – Carlos Drummond de AndradeImagem

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

4° Pássaro Azul – Charles BukowskiImagem

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

5° O Jardim – H. P. Lovecraft Imagem
(Quem gosta do Poe, com certeza vai amar Lovecraft. Ele era um grande fã de Edgar Allan Poe e se inspirava em suas obras.)

Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
e as paredes e as colunas são idéias que passaram.

Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado 
sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor, 
e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.
E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.

A visão de dias idos em mim ressurge e demora, 
quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.

Carolina Ignaczuk